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terça-feira, maio 25, 2010

The "N" word.


Diz a lenda, que esquimós tem mais de cem palavras para definir neve. Nada mais natural, neve é muito importante em suas vidas. Numa terra em que tudo é azul ou branco, é essencial saber diferenciar muito bem os tipos de branco. Nós, por aqui, temos mais de cem palavras para definir relacionamentos, estes são igualmente importantes em nossas vidas, porém, nosso mundo não é definido em azul e branco.

Uma palavra nunca é só uma palavra. Por mais que o dicionário teime em cravar uma, duas ou três definições, num mundo colorido por uma imensa palheta de cores, cada indivíduo dá seu próprio tom a cada vocábulo. A partir de referências, experiências e credos, realiza-se o que a palavra significa para si mesmo. A palavra namoro, logicamente não é diferente.

Os esquimós pescam para sobrevivência, abrem um buraco no gelo e aguardam pacientemente.Assim como eles, vivemos na superfície, e quando resolvemos viver algo mais profundo, abrimos uma brecha na dura camada entre nós e o mundo. Ficamos ali, de bobeira, vendo se alguém morde a isca. Se não gostamos, devolvemos pro oceano, se gostamos, provamos. Se queremos mais, bem, aí chegou a hora de mergulhar.

Quão profundo? Para que lado? Qual a roupa certa? Inundamos nosso pensamentos de questões, analisando uma situação que na verdade não pode ser vista de fora. Só saltando pra saber se o lago da pé ou não. Então porque na hora de mergulhar sempre achamos que água está fria?

Sim, o gelo formado ao longo dos anos, embaixo de nossos pés, dá a entender que a água não está nada confortável. É fato que a superfície também sofre tempestades, que a água debaixo do gelo é mais quente. Talvez não o bastante. Talvez achemos que as nevascas geladas da superfície são menos imprevisíveis, ou que já sabemos lidar com elas.

O namoro é apenas mais uma das palavras com que definimos nossos relacionamentos, e que para cada um, tem um sentido. Para mim, o namoro seria o tipo de neve com que você constrói as fundações do seu iglu. Tem que ser densa o suficiente para agüentar a estrutura das paredes e confortável o bastante para me acolher nas noites de frio. Eu não sei quanto tempo morarei neste iglu, mas tem que ser convincente o bastante para uma vida toda.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Relacionamento diabético


É assim, em algum momento da vida, o sujeito descobre que tem diabetes. Até aquele momento comia o doce que bem entendia. Agora não, independente de gostar muito ou pouco, sem dúvida vai sentir falta. É um sabor que não vai mais poder sentir, nunca mais da mesma maneira.

As opções do diabético são: comer o doce, ignorando a recomendação de todos e sua própria consciência de que aquilo vai te fazer mal. Ou enganar o paladar com doces diet, são parecidos com os doces normais, também não fazem tão bem a saúde, mas são bem menos prejudiciais.

Na primeira opção a experiência é completa. O sabor, a textura, o cheiro, tudo te leva de volta ao tempo que o doce era parte de sua vida. Já na segunda, você se engana. Tudo é similar, pode-se matar parte de seu desejo, pode até ter gosto de chocolate, mas não é mais doce. O amargor provocado pelo adoçante artificial é inevitável.

Devidas as proporções, se tornar diabético é como terminar um relacionamento. De um dia para o outro, você não pode mais ter algo que era parte inerente de sua vida. Os sabores, cheiros, texturas, todos estão eliminados de sua vida. Agora resta pouco a fazer. Como um diabético, você pode ser radical e nunca mais colocar um doce na boca. Como “Ex”, pode nunca mais ver aquela pessoa em sua vida. Guarda a lembrança e encara sua nova realidade.

Não optando pelo radicalismo terá duas opções para lidar com seu finado relacionamento. Cultivar uma amizade ou ter um caso mal resolvido.

Ter um caso mal resolvido é opção popular. Grande parte dos relacionamentos acabados não foram destrutivos ao ponto dos envolvidos não quererem mais olhar pra cara do outro. Com o passar do tempo, a tendência de relacionamentos assim, é esquecer tudo que deu errado e relembrar o que funcionava. Porém, não adianta nada o diabético esquecer que doces lhe são nocivos. Lembrando ou não, assim como o sabor continua, a substância ainda lhe faz mal.

Cultivar amizade é o ideal de todo relacionamento bem acabado. Ambos se gostam, mas, por culpa da vida, não se fazem mais bem. É natural tentar a adaptação para um novo status. Deixar o sexo e o romance de lado e usufruir o restante. O companheirismo, a sintonia, o prazer em dividir. Sim, é possível ter tudo isso, mas partindo do princípio de que tínhamos um todo, e que já fomos muito felizes com esse todo, ter só parte pode ser bem agridoce. Seja quando o outro encontrar um novo alguém, ou quando reclamar de algo que ambos adoravam. Em algum ponto se percebe que aquilo não é mais tão saboroso.

As pessoas que nascem com diabetes, ou até a adquirem logo cedo, sentem menos falta do doce. Não chegaram a comer doces como se nunca mais fossem parar de comer. Não tomaram como certa, a presença daquelas guloseimas para o resto de sua vida. Logo perceberam que teriam que abdicar e não se apegaram. Sofrem mais aqueles que após muito tempo se lambuzando, precisam parar de uma hora pra outra. Com a constante lembrança de como aquilo era bom.

Por isso não é fácil abdicar do doce de maneira radical para quem teve esse longo relacionamento. Por isso uma das duas opções costumam ser a saída. Existe uma opção melhor? Sim, optar pelos dietéticos é bem menos danoso. Mas será que você consegue lidar com o amargor?

quinta-feira, novembro 20, 2008

Mysterious Ways



Sabe quando você está pensando em comprar um carro e por isso o começa a notar na rua? Parece que tem muitos não? Então, quando se termina um relacionamento é a mesma coisa. Parece que o carro de sua ex é o mais vendido do planeta. E lá vai você, automaticamente olhar a placa pra saber se é ela. Pra que? Não sei, já que se for o caso não pense em buzinar, gritar ou bater no carro dela. Mas acredito que tem a ver com a angustia/ansiedade do primeiro encontro pós-término.

Pois bem, ontem ele aconteceu, e não dependi do trânsito para isso. Após uma sucessão de fatos estranhos e peculiares, acabamos nos encontrando sem preparação nenhuma. O lugar nos era conhecido, mas não era público, e quando mal percebemos, lá estávamos só nós dois, tendo que lidar com a estranheza da situação.

Como o fim do namoro não foi litigioso, a civilidade estava intacta, e lentamente começamos a conversar, iniciando pelas bordas de um copo bem cheio. Contamos 3 meses de coisas acumuladas, coisas que só o outro poderia entender, mas que pelas leis não escritas, não contamos.

Mergulhamos no copo e chegamos em nós, reviramos nossos conteúdos, discutimos adaptação, novas realidades, novas vontades, novos costumes, coisas que nos permitimos desde que nos separamos. Descrevemos sensações, rotinas, horários, como se ainda quiséssemos dar satisfação um para o outro, não por dever, e sim por uma mistura estranha de hábito e respeito.

Quase chegando ao fundo do copo falamos tudo que ouvimos um do outro nesse tempo separados, e essa hora foi de longe a mais desagradável. As pessoas se provam cada vez mais maldosas, insensíveis e mentirosas. Falam o que não sabem, o que não devem, o que inventam, e assim mancham uma relação que nunca sofreu com mentiras ou falta de comunicação. Confiar em ninguém é a única solução, melhor ainda se conseguir se blindar de qualquer notícia que dê margem a desconfiança e má interpretação.

Não chegamos a bater no fundo do copo, onde estariam as razões de termos nos separado, os frutos de nossas diferenças ou mesmo nossos sentimentos. Afinal, isso já foi discutido o bastante, e não tem motivo para ser mexido. Estamos bem com nossas decisões e posições, agora resta nos preservar para evitar desgaste desnecessário.

Isso tudo foi muito bom pra mim, tinha muito medo de que nos tornássemos estranhos completos. Nada me machuca mais do que olhar uma pessoa que já fui tão íntimo, como alguém que nunca teve relevância em minha vida. O encontro me provou que não há raiva, rancor, mágoa, desdém, ou qualquer coisa parecida. Confirmei que no fundo somos as mesmas pessoas, apenas em lugares diferentes.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Me empresta sua namorada?


Uma vez o Laganaro (é, mais uma vez ele) escreveu um texto engraçadíssimo. A base da história era de uma amigo pedindo a namorada dele emprestada. A premissa, aparentemente maluca, se desenvolvia com o amigo “pedinte” explicando que não queria a namorada do amigo para nada demais. Não ia beijar, não ia transar, nada de sacanagem, ele só queria estar um pouco com uma namorada. O porquê? Esse final de semana eu entendi.

Quando li o texto, ainda namorava, e achei bem divertido, mas não havia pego o sentimento envolvido, o que o levou aquela idéia. Afinal, pegar uma namorada emprestada não é um pensamento que passa por nossas cabeças normalmente, no máximo, algum pervertido pensaria nisso, e ainda assim, com fins sexuais.

Mas não é o caso, no texto fica bem claro (acho que é melhor vocês lerem, pois é grande demais para eu colocar aqui) que o negocio é diferente. Não sei se vou conseguir colocar em palavras, mesmo porque, como eu disse, eu não tinha completamente entendido até sentir. Tem a ver com intimidade mesmo. Com conforto, ficar com a “guarda baixa” como o Ricardo mesmo sempre diz.

Fui pra praia nesse final de semana e a noite subimos para a cobertura. Sentamos nas cadeiras, dois casais e quatro solteiros. Ficamos na maioria do tempo em silêncio, fumando nossos charutos, ouvindo Dave Matthews, de certa maneira estávamos todos na mesma, os casais não estavam se pegando nem nada, como nós, apenas aproveitavam o raro céu estrelado. Mas era diferente.

Tenho certeza que a experiência deles foi mais completa do que a nossa. Ainda que eu mesmo pregue, que para ser feliz, todos temos que conseguir primeiramente ser felizes sozinhos, certas coisas precisam ser feitas em companhia. Algumas coisas com amigos, outras com companheiras. Sejam namoradas, amantes, esposas, seja lá o que for. Por mais que pareça piegas, ou que não se perceba o valor disso no momento, assim se tem um momento perfeito.

Não é o sexo, não é o beijo, nem a conversa, é o “estar”. É uma mistura estranha de cumplicidade, intimidade, sentimento e presença que, sem precisar se manifestar de nenhuma maneira palpável, está lá.

Nesse sábado eu senti isso, estava sozinho e só queria uma namorada emprestada.

sábado, outubro 04, 2008

Auto-Censura


Prestes a ir para um show do Fábio Jr.(melhor eu nem tentar explicar isso), me pego com uma vontade incontrolável de escrever. Sobre o que? Um milhão de coisas, mas nos últimos dias tudo que penso ganha auto-censura automática.

E não é que esteja querendo falar de temas polêmicos, tabus, ou coisa parecida. Mas parece que tudo que penso em escrever é proibido.

De volta a solteiricie de fato, após praticamente 7 anos, minha mente e corpo fervilham de novas sensações e sentimentos. Das mais depressivas até as mais eufóricas, e quero escrever sobre tudo. Porém tenho um bloqueio sério. Ainda que acredite que após um fim de um relacionamento acabe "matando" a pessoa com quem estava, tenho (quase sempre) uma necessidade incontrolável de respeitar o "espírito"da pessoa. Não consigo simplesmente fingir que a pessoa não existe e começar a falar aqui tudo que sinto. Tudo que possa ser mal interpretado, ofensivo ou possivelmente desagradável para minha ex.

Não, não acho que ela esteja parada, vendo o mundo passar ou chorando meu luto. Pelo contrário, sei que deixar de me namorar deve dar uma sensação das melhores possíveis. Não por eu ser um pessoa ruim, mas extremamente possessivo e intransigente.

Mesmo assim, não consigo. Penso em escrever e acho que vou soar como um adolescente babaca que tem a necessidade de provar que está melhor numa disputa onde não há prêmio. Por outro lado não quero parecer um ser desolado que não vê esperança nessa nova vida. Na real todos temos dos dois tipos de sentimentos, oscilamos entre a felicidade de novas descobertas e a melancolia de um futuro paralelo que um dia pareceu perfeito.

A vida está acontecendo, não me deixou parar pra respirar, vem como uma correnteza fortíssima de uma corredeira cheia de pedras, daquelas que voc6e tem certeza que vai morrer, mas nem por isso deixa de se jogar.

Em alguns momentos caio do bote, engulo água, corto o peito em uma ponta escondida, mas quando acho que estou me afogando consigo voltar pro bote, a tempo de remar com vigor, rumo a próxima queda, que promete, só promete, ser uma das melhores que já desci.

Acho que é justo, gosto da minha corredeira, e é ela que importa pra mim. As que já passei, foram ótimas, me deram ótimas sensações e dores descomunais, mas delas só trago a lembrança da experiência, como se fosse uma foto, que sintetizasse tudo num único quadro.

A foto fica guardada na gaveta, não olho mais pra ela, tenho o suficiente na minha lembrança. Não faz mais sentido saber da corrderia, nem ela de mim.