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terça-feira, novembro 25, 2008

Livre arbítrio.



Deus estava indo bem, criou o universo, como toda sua variedade de planetas, criou as estrelas que deixam o céu muito mais interessante de se olhar, a diversidade de plantas que nos dão de tudo alem de embelezar o mundo, os bichos que fazem o que os bichos fazem, e criou o homem e a mulher para tocar isso pra frente. Estava tudo bem, até ele dar uma qualidade a nós que jogou tudo por água abaixo. O livre arbítrio.

Deus, onisciente que é, sabia que sendo sua imagem e semelhança, mas não tendo seus poderes, não saberíamos lidar com essa liberdade toda. A maça coitada, foi a primeira de milhões de decisões “erradas” que faríamos. Nem vou entrar aqui nas grandes questões de guerra, poluição, genocídio, entre outras. Vou me deter a falar das pequenas coisas.

O livre arbítrio, apesar de direito, na maioria da história da humanidade foi muito bem monitorado. Para manter o povo sob controle inventaram diversas igrejas, leis, maldições, histórias do bicho papão. Isso não nos impediu de fazer muita besteira, mas nos colocou em trilhos com menos desvios e penhascos gigantescos. Transgredir era para os muitos corajosos. E os corajosos sempre vão pra fogueira.

Hoje vivemos num mundo muito mais tolerante, afrouxaram as rédeas, e ainda que reclamemos, não convivemos com muitas restrições. Trocaram os trilhos por largas e intermináveis estradas, repletas de vicinais, estradas de terra e atalhos. Podemos ir onde quiser. Ou seja, enfim, grande parte dos humanos podem usufruir completamente do tal livre arbítrio. Sem medo de punições, regras centenárias ou cabrestos. Somos livres, mas não temos idéia do que fazer com isso.

Basta observar bem a geração dos que tem de 50 anos pra baixo. Conheço muito poucos que estejam completamente tranqüilos com o que estão fazendo com as próprias vidas. Seja no setor profissional ou pessoal. Todos andamos de um lado para o outro sem saber o que estamos fazendo, por que ou mesmo pra que. Nos questionamos o tempo todo sobre o que é certo.

Não digo que antigamente não houvesse questionamento, mas para o público geral, eram apenas sussurros. Não tínhamos direito ou coragem de expressar descontentamento, fazíamos o que tínhamos o que fazer. Casamentos arranjados, heranças de negócio dos pais e aceitação de quem mandava. Era horrível, sim, não podíamos viver nossas próprias vidas, nem questionar o que achássemos errado. Mas era cômodo. Bastava viver.

Não acho que a liberdade seja ruim, de jeito algum, adoro o rumo que as coisas tomaram conceitualmente falando, mas também tenho certeza que estamos completamente perdidos e que sem onisciência vai demorar um bom tempo para nos acharmos.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Sou ou estou?


Toda mudança brusca no seu estilo de vida te transforma. Fique mais feliz, triste, eufórico, desanimado de alguma maneira seu comportamento muda. Seja no trabalho, no visual ou num relacionamento, você altera sua rotina, parâmetros e perspectivas. Isso gera um efeito cascata em que, não raro, quem está a seu lado vai achar que você é outra pessoa.

Pois bem, quando isso acontece, como se difere o que você é e sempre foi do que você está por causa da mudança por qual passou? O que em você é genuíno, de sua personalidade e o que é sintoma temporário. E mais, esses sintomas podem deixar de ser temporários e tornarem-se parte definitiva?

Falo isso porque desde a última grande mudança da minha vida, tenho me visto diferente. Estou muito mais receptivo, simpático e easy-going. Muitos podem dizer, é claro, você agora está solteiro, quer mais é putanhar. Ou então, agora você está sozinho e não sabe lidar com isso, portanto, aceita qualquer programa que aparece pela frente.

Não, não é isso. Não nego que uma parcela se deva a isso. Todos temos posturas diferentes quando solteiros e compromissados. Mas me vejo constantemente fazendo coisas que sempre tive vontade de fazer , mas não podia. Minto, podia, mas optava por não fazer. Sou a favor de fazer concessões quando namoro, assim como as demando. Há tempos venho tendo vontade de aprender a comer comida japonesa, mas minha ex-namorada não tinha muita. Até tentamos algumas vezes juntos, mas eu me sentia mal por ela estar desconfortável com aquilo. Então desencanava, se fosse tão importante pra mim eu insistiria. O contrário era igual, quando minha ex queria fazer algo que eu não queria, eu ia, mas não sei se ela se sentia a vontade com isso. Acho mesmo é que ficava preocupada e não aproveitava do jeito que deveria.

O fato é que agora, eu faço de tudo. Vou a churrascos que não iria, vou comer comida japonesa, vou a festas em lugares que nunca me imaginaria. O primeiro pensamento foi culpar o namoro é claro. Não fazia coisas que não a agradavam. Mas é mentira. Enquanto estava namorando era feliz em conceder, e realmente não fazia nada contra minha vontade. Se fosse pra fazer “de cara feia” não ia. E não tinha tantas limitações assim.

Então me pergunto, esse cara, que faz de tudo agora, que experimenta, que não tem preconceitos, que é mais sociável, sou eu ou “estou eu”? Minha primeira impressão é a de que estou assim. Por ter me privado (conscientemente e de livre vontade) de muita coisa nos últimos anos, estou “tirando o atraso”. Quero fazer tudo que não fiz. Estou inebriado pela sensação de que posso tudo, estou me embriagando de liberdade.

Ao mesmo tempo, lembro de mim anos atrás, de como agia, como encarava certas coisas. Em algumas era muito pior, e minhas duas ex-namoradas foram grandes professoras na minha formação. Em outros pontos, vejo que sou igual, que não ligo para aglomeração de gente se for por um bom programa, que prefiro baladas a barzinhos, que ainda me dou bem com velhos amigos, mesmo que de uma maneira completamente diferente.

Por tudo isso, não consegui chegar a uma resposta, talvez o tempo dirá que sou só um babaca agindo por impulso pós mudança, ou se resgatei velhos hábitos e vontades. Se passar, sem problemas, mas se não, preciso trabalhar muito para não perder tudo isso na próxima vez que estiver com alguém. Pois tenho certeza que isso faria eu ter uma relação mais completa ainda, comigo e com qualquer outra pessoa.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Free Fallin


Já é antiga minha crença de que só se é livre de verdade sozinho. Ainda que eu não ache que para ser completamente feliz, precisa-se ser completamente livre. Abro mão de um pedacinho da minha liberdade para ter uma ótima companhia. Não a toa namorei quase 7 anos seguidos (2 anos e meio + 4 anos e 2 meses), e não me arrependo de um só dia.

Porém, estar completamente livre é sempre interessante. Quando me encontro nessa situação, minha maior angústia é meu maior prazer: Não saber o que vou fazer. Namorar por muito tempo me deixou acostumado a não ter que pensar no que ia fazer, afinal, sempre faria algo similar. Acordava, ligava pra namorada, ia buscar e decidíamos o que faríamos. Se não tivéssemos nada marcado geralmente comíamos alguma coisa e íamos pra minha casa. Se tivéssemos algo marcado, bem, se tivéssemos, honrávamos nossos compromissos. E tudo estava muito bem.

Quando nos sentíamos muito entediados (sempre existe essa fase) experimentávamos algo novo. Uma balada, uma peça ou uma viagem inusitada. Mas pensando no namoro inteiro essas ocasiões representavam pouco. Claro que isso é sintoma de comodismo. Afinal lembro que no começo dos namoros, a vida é muito mais agitada (mesmo que acompanhada) do que no meio dos relacionamentos.

As razões desse comodismo não são exatas. Acredito que em relacionamentos padrão, exista uma adaptação natural de sua vida de solteiro deixada pra trás. Em vez de cortar o cordão umbilical de vez, vamos nos libertando (ou aprisionando) aos poucos. Vemos que as outras pessoas estão em outra sintonia e que não podemos as acompanhar mais em tudo.

O fato é que, após o fim de um relacionamento, fazemos o caminho contrário. Temos que relembrar como são os antigos procedimentos, as antigas sensações. O estranhamento, naturalmente pode causar a sensação de que se trocou uma vida ótima por uma em que você simplesmente não se encaixa. Mentira.

Estar livre é mais fácil do que o contrário. A falta da necessidade de dar e receber satisfação, rapidamente deixa de ser um “menos” para ser um “mais”. A impressão de o mundo ser todo seu começa a invadir sua vida e de repente, quando você está distraído, está sorrindo como há tempos não sorria. Não é um sorriso melhor ou pior do que os que dava enquanto se relacionava, só diferente mesmo.

Viver livre deixa a vida mais imprevisível do que já é. Transforma suas expectativas em migalhas, sejam estas altas ou baixas. Ser livre é conhecer, encontrar, experimentar, tudo sem planejamento, e numa intensidade incrível.

Na minha recém-liberdade, venho provando o gosto de tudo isso. Ás vezes é amargo, ás vezes salgado, ás vezes entala na garganta e em outras você se empanturra até explodir. Independente do sabor, é muito bom exercitar o paladar.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Desapego


Ontem fui assistir "Na Natureza Selvagem", ou "Into the Wild" se preferir.

O filme, dirigido por Sean Penn, mostra a história de um jovem que logo após sua formatura na universidade larga tudo para viver uma aventura. Ir até o Alasca. Em vez de comprar uma passagem e separar um dinheirinho pra ficar lá numa pousada um tempo ele prefere ser um pouco mais radical. Doa todo seu dinheiro, queima seus cartões, dinheiro, RG, abandona o carro. Praticamente mata seu antigo ser para renascer.

Esse não á nem de perto o maior desafio que o personagem interpretado por Emile Hirsch enfrenta nas 2 horas e 20 de filme. Mas foi o suficiente pra me deixar desesperado. Tenho muito medo de fazer algo parecido. Ainda que fosse 1% disso. Sou muito apegado a muitas coisas, tento mudar mas não tenho suficiente força de vontade.

O protagonista do filme, Christopher McCandless (ou Alexander Supertramp, como ele próprio se batiza após a queima do RG), é um desses aventureiros. Nasceu assim, muito mais livre do que a maioria das pessoas. A aventura até o Alasca era algo natural a seu amadurecimento. A maneira extrema que fez também, assim como Supertramp acho que só assim as coisas realmente funcionam.

Mas eu, nascido na maior cidade do meu país, visitante esporádico de sítios e viciado em conforto (traço de hereditariedade), como posso alcançar esse nível de desapego? Mal consigo sair de casa sem celular. Minto. Mal consigo descer pra pegar a pizza sem celular.

Supertramp, acompanhado de Eddie Vedder (compositor da trilha), diz que só se é feliz quando não se tem nada. Só se é realmente livre quando não se tem nada. Será que um dia serei feliz, será que um dia serei livre? Pensando dessa maneira, será que um homem numa penitenciária não tem mais chances de ser livre do que eu? Eu ou a maioria de nós presos a nossas vidinhas, a nossos salários medíocres e ao medo de arriscar tudo. (Tudo o que mesmo?).

Eu acredito em Supertramp, mas sei que vou abrir mão de boa parte da minha felicidade e liberdade em favor da TV a cabo. Porém quero sempre lembrar da sua história, de seu exemplo, pra talvez um dia ter isso que se tem quando não se tem nada.



PS: Não preciso dizer para vocês assistirem o filme né?